Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Old-me

Acordar sem olfato - levantar sem aparato - andar sem calçar - olvidar memórias - aparecer sem preparar - receber de volta tudo - acreditar novamente - arrumar tudo por ordem alfabética e parar - pára -pára -parou.

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

QUERERSENTERE

Digo sem te dizer que te quero ter; quero-me perder ao acontecer, entre ter e não ter; na maneira ridícula que te quero ter entre um amanhecer e um entreter não esperei muito para desaparecer entre apareceres e não apareceres; mas apareceste, lá na fina linha que tinha desenhado só para os entre-metereres dos casos aparentemente perdidos; Aparentemente? Aparentemente entretida nos processos da fiação do casulo que havia nos espaços ainda não preenchidos. Em ruínas estava o estado de envolver, ou mesmo estremecer, o travesti das avenidas isométricas que habitam o centro nevrálgico e poéticozinho da alma; alma entretida em decompôr frases intercaladas e inesgotadas de uma qualquer citação oriental; o sol nasce agora por cima da página que se desfolha num gesto rápido e higiénico, não provocando dor, evitando assim o conflito visível entre ter e não ter no entreter do dizer: Pequena bolinha branca, cicatriza o ter com o querer num músculo extraordinariamente poderoso que empurra o corpo do querer contra a massa vertebrada de cada átomo e molécula do ter-te-querido-tanto-aqui-comigo. Do ter-te-querido-tanto-aqui-comigo. Do ter-te-querido-tanto-aqui-comigo.

A-C-B ou B-C-A

- A conhece B e B conhece A, ambos estão divididos por uma determinada distância C.
- Num denominado dia, A decide percorrer, determinado, a distância denominada caminho C até à casa de B (A procura aí um sim à sua pergunta mais importante).
- Assim que A inicia o seu denominado caminho C, e sem qualquer razão previsível ou justificável, B sai de casa e inicia um, também denominado caminho C para a casa de A (B procura aí uma pergunta para o seu já decidido sim).
- Percorrendo ambos um caminho denominado C, de distância directamente proporcional a um denominador comum entre A e B e também igual entre B e A, chegam ambos à casa oposta sem se encontrarem:
· A não encontra B, nem nehuma razão para este não estar em casa.
· B não encontra A, nem nenhuma razão para este não estar em casa.
· Definitivamente, A não percorreu o denominado caminho C que B assim decidiu nomear. E também não encontrou a tal resposta sim que procurava.
- Definitivamente, também, B não percorreu o denominado caminho C que A assim decidiu nomear. E também não encontrou a tal pergunta para a resposta que trazia consigo.
- A voltou para casa, B voltou para casa. Ambos sem decidirem denominar os seus caminhos por A, B ou C. Algures a meio cruzaram-se, mas absorvidos pelas perguntas de um e nas respostas do outro, não se reconheceram.

PLANTA-A-VILA

Eu sou o meu país. Eu sou o mapa das estradas do meu país. Eu sou o orçamento, a dívida e o produto interno bruto do meu país. Eu sou todas as fronteiras terrestres, aéreas e marítimas do meu país. Eu sou a minha língua e o meu sotaque. Eu sou as cidades do norte e as cidades do sul do meu país. Eu sou a viagem de quem quer sempre voltar quando não lá está. Eu sou sobretudo a vila que quer ser cidade. Eu sou sobretudo as exportações e as importações, as linhas de comércio e as linhas de crédito, a diplomacia e os números. Eu sou a campanha de angariação de fundos para as tragédias que acontecem muito longe. Eu sou as guerras do passado e as alianças do futuro. Eu sou todas as crianças do meu país no primeiro dia de aulas e todos os licenciados no primeiro dia de trabalho. Eu sou todos os instrumentos musicais e todas as canções populares. Eu sou o programa do governo e a crítica da oposição. Eu sou todos os ranchos folclóricos da mesma maneira que sou a esquerda e sou a direita no dia das eleições. Eu sou o folheto, o cartaz e o outdoor do meu país. Eu sou a campanha turística dirigida ao estrangeiro. Eu sou o conservador do museu de arte antiga e de todas as outras obras de arte que cá foram feitas. Eu sou o e-migrante e o i-migrante. Eu sou o pelotão da grande guerra e o general da pequena guerrilha. Eu sou o dia da independência do meu país. Eu sou o dia da fundação do meu país. Eu sou o dia da adesão, eu sou o meu país.O meu país está dividido em primeira cabeça, segundo tronco e quatro membros: Na cabeça o acordeon das ideias expansionistas e da qualidade de vida; no tronco a central de informação e as acendalhas da economia; nos membros os alpendres das matérias primas e os embaixadores dos tratados internacionais.Na primeira cabeça existem três pontinhos escuros ao lado do pescoço: o amigo, o amigo do amigo e um alguém que conhece muitos amigos. Na cabeça estão também dois sobrolhos e são, ambos, primos da boca. Na boca da cabeça a voz de todos eles: amigos e sobrolhos cantam, de vez em quando, uma cantiga americana muito conhecida.No segundo tronco não há fronteiras, tudo se dirige ao umbigo de manhã e de volta às extremidades à tarde. No umbigo quase que não se consegue ver o tronco, mas todos no tronco querem habitar o umbigo. Neste tronco sem fronteiras o peito está descaído, cobrindo assim o seu estômago vazio mas que apesar de dilatado, sorri (para o umbigo, claro).Os membros são quatro: perna direita - perna esquerda, braço direito – braço esquerdo, empate técnico obviamente. Os membros empatam e dividem o tronco que por vezes se inclina para a direita, e que por vezes se inclina para a esquerda. Para evitar o desequilíbrio, a cabeça amiga desempata e decide em percentagem pela imobilidade.O meu país é, por isso, imóvel. O meu país é maníaco-inclinativo. O meu país tem uma cabeça demasiado amiga, um tronco demasiado centralizado e uns membros empatados que o desequilibram. Mas o meu país dança. O meu país canta. O meu país festeja. O meu país comemora. O meu país vibra com os deferidos do seu desporto e com as madrugadas da sua cultura. Mas o meu país dança novamente, canta novamente, festeja mais uma vez e comemora, comemora aniversários, obituários, anos, dias, horas, comemora todos os feriados possíveis e imaginários e sabe que algures lá dentro (talvez aqui) está a primeira pessoa do singular: Eu. Eu sou o meu país. Eu sou o mapa das estradas do meu país. Eu sou o orçamento, a dívida e o produto interno bruto do meu país. Eu sou todas as fronteiras: terrestres, aéreas e marítimas do meu país. Eu sou a minha língua e o meu sotaque. Eu sou as cidades do norte e as aldeias do sul. Eu sou a viagem de quem quer sempre voltar quando não lá está. Eu sou ainda a pequena vila que quer ser à força a grande cidade. Mas eu sou sobretudo a pequena aldeia que antes de ser vila já quer ser cidade. Eu sou a aldeia, a vila e a cidade. Eu sou o meu país.

Frescos da living-room (ffoward 3.59)

E se construíssemos uma casa imaginária. E se construíssemos uma casa como aquelas dos filmes. E se fosse uma casa de um sonho. E se fosse uma casa impossível. Daquelas que sonhas todos os dias. E se as paredes dessa casa falassem contigo das cores que as podias pintar. E se a tua cor preferida fosse a única no mundo. E se essa casa fosse completamente tua. E se essas paredes fossem transparentes e do outro lado apenas o belo. E se as tuas portas fossem apenas braços de um amante. E se a tua campaínha tocasse incessantemente. E se a tua chave fosse igual à minha e à de toda a gente. E se não precisasses de janelas e os pássaros te entrassem por elas a dentro como pequenas pedras atiradas por alguém que te chama da rua. E se os sorrisos das pessoas na rua fossem todos para ti. E se as pessoas que falam contigo fossem apenas imaginação. E se a luz da manhã tivesse o cheiro do perfume da pessoa que amas. E se o Sol te coubesse todo numa mão para iluminares só quem tu quizesses. E se eu precisasse de luz. E se eu fosse como a Lua por detrás do castelo só para ti. E se eu não existisse aínda. E se o tempo dependesse de ti. E se a vida fosse uma estória inventada. E se os teus livros fossem todos lidos. E se as páginas não tivessem números. E se os rios não chegassem ao mar. E se. E se. E se. E se as praças estivessem todas vazias. E se as estátuas te tocassem por dentro e soubessem o teu nome de cor. E se os músculos das tuas pernas fossem compositores famosos. E se ficasses sempre bem nas fotografias que os outros te tiram. E se. E se. E se. E se. E se as velas se acendessem sozinhas. E se. E se os cofres fossem todos de vidro. E se as moedas tivessem a tua cara. E se o teu corpo não conduzisse electricidade. E se o eclipse fosse sempre só na tua cidade. E se as estrelas à noite fossem apenas pontinhos luminosos pregados num tecto. E se as vagens das plantas se abrissem todas ao mesmo tempo para provares o açucar dos frutos. E se as pétalas das flores tivessem sempre o teu nome escrito. E se tivesses uma horta. E se as plantas dessa horta fossem todas daninhas. E se. E se. E se sorrisses. E se os canivetes que trazias antes fossem apenas o brilho dos teus dentes esculpidos a ouro. E se sorrisses. E se todo o ruído fosse toda a tua música preferida. E se tivesses sempre as mãos nos bolsos. E se não tivesses papel. E se a tua caneta realmente controlasse o que tu escreves. E se todo o ruído fosse toda a tua música preferida. E se tu existisses. E se eu fosse o vómito., se eu fosse os buracos eternos da calçada, se eu fosse as rachas no mármore, o esgoto aberto, a vala comum, os estilhaços de vidro, as fotografias erradas, o papel amachucado, as letras desordenadas, os dedos manchados, a carne rasgada, o desafinar.

E se o branco fosse apenas a mistura de todas as cores e + uma.
Eu não.

Ponto final 03h59

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

carta de demissão

Eu, Pedro Alexandre Gomes Saavedra, desisto. Desisto de acreditar, de acreditar em continuar, em achar, em opinar, em desejar opinar sobre continuar e em desejar sonhar que nunca vou deixar de opinar. Desisto de aparecer, entreter, enternecer, acontecer, e de aborrecer todos os seres que me forem aparecendo. Desisto de acreditar nas histórias dos outros e de querer continuar as que eles começaram. Desisto dos meus pais, do nome dos meus antepassados e do brasão da minha casa. Desisto do meu país, do meu BI, do meu NIB, NIF e de todos os meus outros passaportes. Desisto dos números, das linhas e das letras todas que os preenchem daí para a frente. Desisto de procurar emprego, sossego, apego, e de todas as outras coisas do ego. Desisto de abraçar envelopes, de os colar e de os enviar de mim para ti. Desisto.

Desisto de querer acordar ao teu lado e de te elogiar o que não sabes fazer bem. Desisto de emoldurar o nosso amor como se fosse daqueles de durar para sempre. Desisto de te estimular, excitar, esfregar, agarrar, encontrar e despir. Desisto de te beijar, tocar, abraçar, agarrar, amaricar. Desisto de fazer amor contigo, de fazer outro contigo, de fazer de fazedor contigo. Desisto de te querer nas esquinas do meu mapa desactualizado, de te pôr em coordenadas erradas, de te pôr nos post-it’s descolorados, de te pôr lá em posições coreografadas, de te pôr lá em postais feitos para turistas, feitos para paisagens, feitos para vender, esquecer, engrandecer, esconder, e amarelecer todas as outras coisas.

Desisto de ler livros de viagens, biografias, romances, ensaios e teses de ensaios. Desisto de fazer licenciaturas, aventuras, mestrados, canoas, doutoramentos, experiências científicas, análises ao sangue, electrocardiogramas, rebuçados e testes de esforço. Desisto de apontar linhas de raciocínio, gráficos de escalas, ordens de remessa, blocos de notas e livros de recibos.

Desisto da personagem. Desisto da única personagem previsível e entediante que sabe tudo para a frente mas que insiste em não se lembrar de nada do que aconteceu antes. Desisto do actor. Desisto de ser o actor que habita nas coisas que ele me/vos impinge como inquestionáveis, possíveis e verdadeiras.

Desisto de escrever, representar, encenar, pintar, compor, acertar, afinar, afirmar, desenhar, acarinhar, saborear e de sentir tudo isso ao mesmo tempo em que avanço todo o meu peso em linha recta. Desisto de apagar, brincar, produzir, sujar, decompor, errar, desafinar, interrogar, destruir, ofender, cuspir e de sentir tudo isso ao mesmo tempo em que avanço todo o meu peso em linha recta.

Desisto de tomar a medicação prescrita por todos os cardio-cirurgiões que me fazem intervenções de peito aberto, intervenções que só me invejam o doce alcatrão que escorre dos meus pulmões.

Desisto de fingir, mentir, assentir, cumprir, acertar, manipular, e de vos f… a todos.

Mas não desisto de desistir. Mas não desisto de te olhar nos olhos (não consigo mesmo tirá-los de ti), de aceitar a tua natural indiferença, a tua habitual descrença, a tua total falta de fé nas coisas básicas que digo, da tua total falta de fé nos meus alfabetos emocionais; porque pergunto sempre: quem és tu de novo?

Não desisto de acreditar nos verbos e nos adjectivos que tu nunca queres dizer. Nunca desisto de te imaginar nua, simples, possível, disponível, aparecida, encontrada, sentada, debruçada à janela daquele sítio que só nós os dois conhecemos. Não desisto de te chorar, de te encontrar, de te chorar e amachucar nas folhas e contra-folhas dos questionários. Não desisto dos teus filmes, dos teus compositores, dos teus realizadores, dos teus produtores, dos teus financiadores e de todos os seus manipuladores.

Não desisto de fumar (adoro fumar), aceitar, acreditar, reciclar, limpar, dançar (adoro dançar) e furar os tímpanos com o ruído harmonioso das minhas músicas preferidas. Não desisto de cantar (adoro cantar) as árias mais conhecidas e os tangos mais estranhos. Não desisto de nadar (adoro nadar) nas praias mais próximas e nos rios mais distantes. Não desisto de torturar (adoro torturar) as costas mais frias e os ombros mais quentes. Não desisto de emocionar (adoro emocionar) estranhos e amigos de estranhos. Não desisto de contar (adoro contar) estórias verdadeiras e histórias inventadas. Não desisto de somar, multiplicar, subtrair e dividir só para me divertir (adoro somar). Não desisto de olhar (adoro olhar) as coisas que ultrapassam o horizonte humanamente possível. Adoro, assim, criar astronautas híbridos, reprodutores, edifícios encastrados, factos ilustrados, barcos inancorados, para apenas te poder ver a ti lá. Talvez ainda te consiga ver a ti lá.

Mas, sobretudo, não desisto de acreditar em vocês e na maneira como vocês não desistem de acreditar nos meus nomes, nos meus números, nas minhas perguntas, nos meus astronautas, nas minhas companhias de navegação, nas minhas naves espaciais, nas minhas acrobacias, e nas minhas coreografias de 2ª a 6ª. Não desisto.


Eles não sabem como é.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - P.2007